A LBM em cartaz: Março LBM Em Cartaz

Querid@s leitor@s,

Já nos primeiros dias de abril, chegamos à recapitulação das estreias da LBM no cinema para o mês de março. Pensamos seriamente em lançar este post dia 1º de abril dizendo que todas as estreias do cinema do mês de março foram nossas. Mas todos sabem que se trata do ratinho, e não do Grúfalo!

Então, vamos às 5 estreias do mês. Está de bom tamanho, não?

***

Semana 2

Começamos o mês sem estreias, mas na segunda semana tivemos lançamento duplo. Cabe aqui uma errata: anunciamos no recap do mês passado a estreia de “Boa Noite, Mamãe!” (PlayArte Pictures), mas na verdade o filme acabou estreando em 10 de março. A data já vinha sendo remarcada desde janeiro, foi remarcada mais uma vez um pouco em cima da hora e nós acabamos comendo bola por aqui. Quem quiser ver ou rever os comentários da tradução desse filme de terror, clique aqui.

O segundo lançamento foi o meigo “Little Boy – Além do Impossível”. A primeira parceria entre Cinépolis Brasil e LBM, tivemos o prazer de revisar e adaptar a tradução desse filme que havia sido feita no México e estava um tanto literal. Uma coisa incrível que nos aconteceu foi poder colaborar com a confecção do título. Para quem ainda não sabe e se pergunta, tradutores não escolhem traduções de título de filme. Quem faz isso são as distribuidoras dos filmes no Brasil. A equipe da Cinépolis, no entanto, de coração muito aberto nos pediu sugestões para um subtítulo (o título original “Little Boy” se manteve por se tratar do apelido do protagonista, que se relaciona com um dado histórico intraduzível: o nome da bomba atômica lançada sobre Hiroshima), e acabou acatando “Além do Impossível”.

Little Boy comemorando o fato de ter “movido uma montanha”. O que seria milagre maior: mover uma montanha ou ter uma sugestão para título de filme aceita por um departamento de marketing?

Isso nos deixou muito feliz, dada a raridade da situação. Segundo depoimento do sócio-pai, há muito tempo as distribuidoras costumavam pedir sugestões para títulos, mas nunca aceitavam nenhuma. Então nada mais lógico que, a certa altura, alguém tenha tido a brilhante ideia de parar de fazer perguntas inúteis 😛

Outro fato curioso sobre o processo é que o filme não tinha cópia em baixa, então tivemos que levar nossa revisão para uma sala de cinema da Cinépolis no JK Iguatemi e finalizar nosso trabalho de lá, com uma projetista que ia e voltava o filme na telona se comunicando com a gente por walkie-talkie. Bem inusitado. Mas não temos nada a reclamar da salona escura só para nós: ninguém nos viu chorando no final.

Semana 4

Na terceira semana, nada de estreias também. Mas, como já parece ser costume desse mês de março, na semana 4 tivemos estreia dupla.

“O Jovem Messias” (Paris Filmes) estreou como filme de Páscoa deste ano, focando na infância do menino Jesus. Apesar de ter sido uma tradução tranquila, filmes que se passam em épocas muito distantes no passado sempre trazem um risco de anacronia na terminologia, como já mencionamos no blog outras vezes. Desta vez, tivemos um desafio especial com os termos betrothal/betrothed. O colaborador João Artur, tradutor principal do filme, nos escreveu o seguinte relato sobre o processo:

“Everyone here remembers your betrothal.”

“The morning your betrothed, young Mary, came out of the house…”

 

A instituição do casamento – embora em arranjos muito diversos do que podemos observar hoje em dia – é tão antiga que antecede os registros históricos disponíveis. Todavia, os conceitos e práticas que envolvem o noivado e o casamento mais comuns e arraigados na cultura Ocidental são amplamente influenciados pelo Estado e pela Igreja Católica. Com isso em mente, nossa preocupação era não nos rendermos a um termo como “noivado” que, além de anacrônico, está intimamente ligado aos conceitos citados acima e que, atualmente, pode ser celebrado de diversas formas, sendo a oferta de um anel de compromisso a mais tradicional delas.

Aprofundando nossas pesquisas, procuramos entender melhor a dinâmica do casamento judaico. E foi assim que descobrimos que, assim como nos dias atuais, há dois estágios: erusin (noivado) e nissuin (casamento). O primeiro se refere à promessa de casamento; enquanto o segundo, à celebração do casamento em si. Uma diferença, porém, bastante intrigante no erusin (noivado) é que, para encerrá-lo, era necessário um divórcio. Ou seja, prometeu? É melhor cumprir 😉

Foi assim que:

1) dispostos a não utilizar noivar/noivado;

2) manter a rigidez característica do vínculo;

3) evitar um termo anacrônico e/ou uma simplificação de uma palavra incomum como

“betrothal”;

chegamos ao verbo… tchan-tchan-tchan-tchan… “desposar”!

bitransitivo

3             combinar, acertar o casamento de

Ex.: tentava d. a filha com o rico industrial

(Houaiss Eletrônico, 2009)

Pode parecer que todo esse percurso para chegar a um único termo é um bocado exagerado, mas é sempre bom estar preparado para o caso de o cliente pedir uma justificativa ou explicação para uma determinada tradução. E não é que foi o caso? Aliás, particularmente, considero o processo de exercitar mentalmente possíveis percursos para escolhas tradutórias muito divertido e útil na hora de tomar decisões.

Thanks, Johnny 🙂

A outra estreia da semana foi “Conspiração e Poder”, da Mares Filmes. Como obra cinematográfica, um filmão sobre um tema muito relevante e grandes atuações. Como tradução, um abacaxi a ser descascado. MUITAS falas e tudo dito muito rápido e encavalado. E o terror de qualquer legendador: cartelas na tela enquanto personagens falam. Sério, alguém precisa dar um toque para editores de filme em Hollywood.

Muitos ajustes de todos os tipos foram necessários: diálogos puxados para frente e para trás para acomodar tradução de cartelas, muitos diálogos puxados para cima, economia de palavras sistemática. Um belo exercício de resumo! O resultado final foi nota 10, no entanto, e até recebemos um elogio na nossa página no Face:

comment truth

Semana 5

E aos 45 do segundo tempo, dia 31, a última estreia do mês: “Visões do Passado” (PlayArte Pictures). O suspense com toques fantasmagóricos é o sonho de qualquer tradutor cansado: muito susto e poucas falas.

Adrien Brody, conte todas as suas angústias para o legendador, mas apenas com suspiros e caretas.

***

Show, pessoal. Este mês ainda teremos guest post, Daredevilish Subtitling II e, é claro, as estreias do mês de abril. Até muito em breve 🙂


Tradutora e revisora de legendas para cinema há dez anos. Leitora de livros, Piauí, The New Yorker e todo tipo de porcaria da internet, mas sobretudo de legendas. Viajante (em todos os sentidos). Sócia-fundadora da LBM, seu projeto de vida, com o maior orgulho do mundo.

Deixe uma resposta